sexta-feira, 26 de agosto de 2016

#1

Era capaz de atravessar a cidade a pé só para te ver,
e a culpa é tua.

Lembro-me que fomos jantar. Há vinte dias. Escolhemos o sítio em menos de duas mensagens. Telegráficas. Nunca fomos de complicar. Perdi a conta das vezes em que soube ler-te antes de haver qualquer palavra. O caminho para chegar a ti faz-se em linha reta. Sempre. 

És uma espécie de relógio suíço, versão ultra moderna. Não falhas, não vacilas, não mordes a corda. Nunca serás o primeiro a saltar borda fora. Nem saberás dizer se o copo está meio cheio ou meio vazio. É um copo com água e ponto. Discordamos mais vezes do que estamos de acordo. Dizemos asneiras, rimos a bom rir, falamos de coisas sérias sem corar. Não temos vergonha de olhar para trás, mas sabemos, sem saber é claro, que o melhor ainda está para vir.

Foste-me apresentado como uma 'top person'. Para olhares mais distraídos não temos absolutamente nada em comum. Acho que essa tua aura de capitão do navio coloca a fasquia muito elevada. Intimidaste-me, é claro. Mas deixei-me de tretas quando percebi que nos entendíamos nas pequenas grandes coisas. Sem filtros. Como dois miúdos a trocar cromos. Entendemo-nos no que importa. Nos gestos, nas ações, nas lutas silenciosas que travamos.

Nunca nos zangamos, mas estivemos muito tempo longe um do outro. Não foste ao meu casamento. Nunca precisei de saber o teu nome completo. Já nos vimos solteiros, de coração ao vento, comprometidos, casados, lixados e separados. Houve um momento lá atrás em que julguei estar a gostar muito de ti. Muito talvez seja exagero. Um exagero com direito a borboletas na barriga. Nunca to confessei. Nem foi preciso, porque apressadamente tomaste conta da situação e puseste os pontos nos is, dessa forma que só tu sabes fazer, sem qualquer sangue derramado. Um corte limpo.

Lembro-me que fomos jantar há vinte dias. Não me lembro como chegamos à parte do ‘sabes, acho que estou a apaixonar-me por ti’. Juro que não. Só me lembro de ter sentido o teu cheiro muito perto. Um aroma quente, quase abrasivo. E doce. Inebriante e doce. ‘Sim, estou a apaixonar-me por ti’. Repetes. Tenho a sensação que estás a sorrir, a saborear o momento, a puxar-me mais para ti. E eu não sei o que é estar tão perto de ti. Não desistes. Tocas-me no pescoço, onde te demoras um segundo ou uma hora. E depois vem o beijo. O primeiro e único beijo. Um comboio em alta velocidade. Um poema de Sophia. E uma branca. Demorada e íntima. Fiz a única coisa digna de ser feita: fugir de ti.

É como se o relógio suíço tivesse parado. E agora? Que é feito do tempo, da exatidão das coisas, do mergulho de olhos fechados? Não devolvi chamadas nem mensagens, não li emails. Porra, não faço a mínima ideia do que devo ou não fazer, nem sei o que comi ao almoço. Mudaste tudo. As regras são outras, o caminho deixou de ser em linha reta. E o pior é que tenho saudades tuas.

E hoje, só hoje, 
era capaz de atravessar a cidade a pé só para te ver.