Era capaz de atravessar a cidade a pé só
para te ver,
e a culpa é tua.
Lembro-me que fomos jantar. Há vinte dias. Escolhemos o sítio em menos de duas mensagens. Telegráficas. Nunca fomos
de complicar. Perdi a conta das vezes em que soube ler-te antes de haver qualquer
palavra. O caminho para chegar a ti faz-se em linha reta. Sempre.
És uma espécie de relógio suíço, versão
ultra moderna. Não falhas, não vacilas, não mordes a corda. Nunca serás o
primeiro a saltar borda fora. Nem saberás dizer se o copo está meio cheio ou
meio vazio. É um copo com água e ponto. Discordamos mais vezes do que estamos
de acordo. Dizemos asneiras, rimos a bom rir, falamos de coisas sérias sem
corar. Não temos vergonha de olhar para trás, mas sabemos, sem saber
é claro, que o melhor ainda está para vir.
Foste-me apresentado como uma 'top
person'. Para olhares mais distraídos não temos absolutamente nada em comum.
Acho que essa tua aura de capitão do navio coloca a fasquia muito elevada.
Intimidaste-me, é claro. Mas deixei-me de tretas quando percebi que nos
entendíamos nas pequenas grandes coisas. Sem filtros. Como dois miúdos a trocar
cromos. Entendemo-nos no que importa. Nos gestos, nas ações, nas lutas silenciosas
que travamos.
Nunca nos zangamos, mas estivemos muito
tempo longe um do outro. Não foste ao meu casamento. Nunca precisei de saber o
teu nome completo. Já nos vimos solteiros, de coração ao vento, comprometidos,
casados, lixados e separados. Houve um momento lá atrás em que julguei estar a
gostar muito de ti. Muito talvez seja exagero. Um exagero com direito a
borboletas na barriga. Nunca to confessei. Nem foi preciso, porque
apressadamente tomaste conta da situação e puseste os pontos nos is, dessa
forma que só tu sabes fazer, sem qualquer sangue derramado. Um corte
limpo.
Lembro-me que fomos jantar há vinte dias. Não me lembro como chegamos à parte do ‘sabes, acho que estou a apaixonar-me por
ti’. Juro que não. Só me lembro de ter sentido o teu cheiro muito perto. Um
aroma quente, quase abrasivo. E doce. Inebriante e doce. ‘Sim, estou a
apaixonar-me por ti’. Repetes. Tenho a sensação que estás a sorrir, a saborear
o momento, a puxar-me mais para ti. E eu não sei o que é estar tão perto de ti.
Não desistes. Tocas-me no pescoço, onde te demoras um segundo ou uma hora. E
depois vem o beijo. O primeiro e único beijo. Um comboio em alta
velocidade. Um poema de Sophia. E uma branca. Demorada e íntima. Fiz a única
coisa digna de ser feita: fugir de ti.
É como se o relógio suíço tivesse
parado. E agora? Que é feito do tempo, da exatidão das coisas, do mergulho de
olhos fechados? Não devolvi chamadas nem mensagens, não li emails. Porra, não
faço a mínima ideia do que devo ou não fazer, nem sei o que comi ao almoço.
Mudaste tudo. As regras são outras, o caminho deixou de ser em linha
reta. E o pior é que tenho saudades tuas.
E hoje, só hoje,
era capaz de atravessar a cidade a pé só
para te ver.