Instalou-se junto ao balcão, onde conseguia ter uma vista panorâmica do café, a escassos metros da Piazza Navona. No ar, pairava o aroma quente do café e dos primeiros dias de um verão antecipado. Ainda não chegara junho e, lá fora, o termómetro marcava trinta graus. Sentiu-se tremendamente ridículo por ter enfiado dois fatos na mala, à pressa, pensando que estariam à altura da ocasião. Era a sua primeira vez em Roma.
Deu por si a recordar as últimas 24 horas. A saudade entranhada até aos confins da alma, o bilhete de avião comprado em dois minutos, a sofreguidão para chegar à porta de embarque, a sensação de liberdade ao abandonar-se no lugar de avião. Ficou tudo para trás. Emails para responder, o jornal sagrado de sábado para ler, o jogo para ver com o filho, a casa vazia. Aos quarenta e dois anos apaixonou-se perdidamente por ela.
Enquanto avistava ao longe duas gaivotas a rasgar o céu azul, o seu coração de pouco uso tomou as rédeas e galgou a linha da partida. Ela tinha entrado no café. E ele viu-a, enfim, usando um vestido às flores e sabrinas de bailarina, toda cheia de si. Procurou instantaneamente o chão, mas perdeu-o de vista e ela, sorrindo, trespassou-lhe o peito como um comboio em alta velocidade. Chegou até ele num passo de dança e olhou-o com aqueles olhos pretos imensos capazes de tudo. Diz-lhe, foda-se, pensou ele. Diz-lhe. Dá-lhe tudo numa bandeja de prata. Diz-lhe agora.
"Amo-te",
E quem lá estava no café jura tê-la ouvido dizer, baixinho, antes do beijo: "Eu também."