sexta-feira, 30 de setembro de 2016

#4

Instalou-se junto ao balcão, onde conseguia ter uma vista panorâmica do café, a escassos metros da Piazza Navona. No ar, pairava o aroma quente do café e dos primeiros dias de um verão antecipado. Ainda não chegara junho e, lá fora, o termómetro marcava trinta graus. Sentiu-se tremendamente ridículo por ter enfiado dois fatos na mala, à pressa, pensando que estariam à altura da ocasião. Era a sua primeira vez em Roma.
 
Deu por si a recordar as últimas 24 horas. A saudade entranhada até aos confins da alma, o bilhete de avião comprado em dois minutos, a sofreguidão para chegar à porta de embarque, a sensação de liberdade ao abandonar-se no lugar de avião. Ficou tudo para trás. Emails para responder, o jornal sagrado de sábado para ler, o jogo para ver com o filho, a casa vazia. Aos quarenta e dois anos apaixonou-se perdidamente por ela.
 
Enquanto avistava ao longe duas gaivotas a rasgar o céu azul, o seu coração de pouco uso tomou as rédeas e galgou a linha da partida. Ela tinha entrado no café. E ele viu-a, enfim, usando um vestido às flores e sabrinas de bailarina, toda cheia de si. Procurou instantaneamente o chão, mas perdeu-o de vista e ela, sorrindo, trespassou-lhe o peito como um comboio em alta velocidade. Chegou até ele num passo de dança e olhou-o com aqueles olhos pretos imensos capazes de tudo. Diz-lhe, foda-se, pensou ele. Diz-lhe. Dá-lhe tudo numa bandeja de prata. Diz-lhe agora.
 
"Amo-te",
 
E quem lá estava no café jura tê-la ouvido dizer, baixinho, antes do beijo: "Eu também."

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

#3

Um dia, voltaremos aqui. E encontraremos o amor tal como o deixámos: suspenso na prateleira das coisas por estrear. Na altura, pareceu-nos a decisão acertada. Acelerar o passo, desviar o olhar e o coração. Eu era muito nova e tu eras absolutamente perfeito. Jamais podia desconfiar que estavas tão perdido como eu.

Um dia, vamos escrever cartas de amor e pendurá-las à porta da mercearia do bairro mais conhecido da cidade. Porque ao contrário do que me fizeste acreditar, o amor é de bradar aos céus. Evidente, absoluto e impossível de esconder. É o elefante escancarado no meio da sala. Um oceano de borboletas a dançar salsa na barriga.

Um dia vou trocar promessas tontas por beijos. Todos os beijos que houver para dar. Vou dançar contigo de mãos dadas, no meio da rua ou da sala, e fazer de conta que mais ninguém sabe o que é ser feliz. Tão feliz. Com sorte, vamos esquecer o tanto que caminhámos até voltar aqui, ao epicentro do caos e das certezas universais. Ao lugar agridoce que nos conhece de cor, onde nada falta,


meu Amor.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

#2

Daqui, sem que desconfies, mato saudades do teu olhar. Um olhar quase verde, quase meu, para sempre o mais bonito. Lembro-me da primeira vez em que te vi, tão menina e tão altiva, cheia de sabedoria e verdade. Como se soubesses onde está o tesouro que toda a gente procura. Não mudava nada. Nem a malícia azul-escura do teu sorriso, que esconde mais do que conta, que pede mais do que dá. E eu, por ti, dou tudo, como sabes. Daqui vejo-te a usar uma das tuas saias improváveis e tenho a absoluta certeza que todas as manhãs te vou amar mais do que gostaria. Mesmo naquelas em que não acordamos juntos. És a estrada queimada por onde passeio descalço, a seta que trespassa o peito a sangue frio, o oásis secreto no centro da cidade. Não há ninguém como tu. Ninguém. Ninguém que tão bem saiba o que é ser feliz sem falsos predicados ou condições absolutas. Ninguém que consiga, dessa forma quase infantil, tomar conta de tudo o que é meu. Ninguém que diga com igual descaramento “estou só a ver”, quando na verdade estás a usar e a abusar, até ficares farta. Às vezes és um bocadinho má. Daqui imagino-te a dançar em lugares onde nenhuma alma dançou. Ao som de músicas mais antigas do que as tuas malas vintage e sempre, mas sempre, em bicos de pés. Porque o chão firme é o destino e nunca o caminho. 

Toda a gente tem a sua história. E a minha é sobre ti.