sexta-feira, 18 de novembro de 2016

#5

Ela desatou a correr e gritou-lhe do alto dos seus trinta e muitos anos:

“Anda, anda rápido. Vamos ser felizes”.

A meninice de lolita mantém-se intacta desde o momento em que a viu, há muitos anos, entre capas negras e pingos de chuva. Às vezes, a vida imita a ficção e no primeiro dia da faculdade caíram redondos um pelo outro. Durante dois meses fizeram de conta que era fogo de pavio curto, brincaram ao gato e ao rato entre a biblioteca e o corredor da cantina, inventaram as desculpas mais miseráveis para se verem dois minutos no fim das aulas. No natal, e sem um beijo roubado, ele pôs fim ao suplício e declarou-se, oferecendo-lhe uma caixa de veludo vermelha. Lá dentro estava um coração de cartolina que dizia simplesmente: “toma, é teu”. O amor aconteceu-lhes cedo demais, por isso fizeram o que tinha a ser feito: entrar na dança, esperando haver sempre tango para dançar.

Cresceram juntos. Amaram-se muito. Odiaram-se algumas vezes. Riram mais do que choraram. Afastaram-se. Reencontraram-se, 435 longos dias depois, no mesmo café aonde disseram adeus quase em surdina, com medo que o destino os levasse a sério. Deram-se uma oportunidade. Começaram de novo. Abandonaram o passado na primeira rua sem saída. Casaram em dia par, sem testemunhas nem promessas. Descobriram que a partilha tem tanto de prazer como de dor. E que as palavras esfumam-se mais depressa que os gestos. Que estar perto não basta e que as saudades são segredos contados ao ouvido. Que o que tiver de ser é muito forte mas só acontece por um triz. Que 1+1 é muito mais do que 2. É o mundo todo num poema declamado numa noite de verão.

Ele queria saber tanto de arte como de leis. E ela queria ver o mundo com as lentes dele: limpas de impurezas. Ele queria sonhar como quem dança, rir como quem beija, adormecer com a lua na ponta dos pés. Como ela.

“Anda lá, anda rápido”, gritou-lhe, ao longe, outra vez.

E ele foi, claro, foi a correr. Para ela. O mais irresistível dos paraísos.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

#4

Instalou-se junto ao balcão, onde conseguia ter uma vista panorâmica do café, a escassos metros da Piazza Navona. No ar, pairava o aroma quente do café e dos primeiros dias de um verão antecipado. Ainda não chegara junho e, lá fora, o termómetro marcava trinta graus. Sentiu-se tremendamente ridículo por ter enfiado dois fatos na mala, à pressa, pensando que estariam à altura da ocasião. Era a sua primeira vez em Roma.
 
Deu por si a recordar as últimas 24 horas. A saudade entranhada até aos confins da alma, o bilhete de avião comprado em dois minutos, a sofreguidão para chegar à porta de embarque, a sensação de liberdade ao abandonar-se no lugar de avião. Ficou tudo para trás. Emails para responder, o jornal sagrado de sábado para ler, o jogo para ver com o filho, a casa vazia. Aos quarenta e dois anos apaixonou-se perdidamente por ela.
 
Enquanto avistava ao longe duas gaivotas a rasgar o céu azul, o seu coração de pouco uso tomou as rédeas e galgou a linha da partida. Ela tinha entrado no café. E ele viu-a, enfim, usando um vestido às flores e sabrinas de bailarina, toda cheia de si. Procurou instantaneamente o chão, mas perdeu-o de vista e ela, sorrindo, trespassou-lhe o peito como um comboio em alta velocidade. Chegou até ele num passo de dança e olhou-o com aqueles olhos pretos imensos capazes de tudo. Diz-lhe, foda-se, pensou ele. Diz-lhe. Dá-lhe tudo numa bandeja de prata. Diz-lhe agora.
 
"Amo-te",
 
E quem lá estava no café jura tê-la ouvido dizer, baixinho, antes do beijo: "Eu também."

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

#3

Um dia, voltaremos aqui. E encontraremos o amor tal como o deixámos: suspenso na prateleira das coisas por estrear. Na altura, pareceu-nos a decisão acertada. Acelerar o passo, desviar o olhar e o coração. Eu era muito nova e tu eras absolutamente perfeito. Jamais podia desconfiar que estavas tão perdido como eu.

Um dia, vamos escrever cartas de amor e pendurá-las à porta da mercearia do bairro mais conhecido da cidade. Porque ao contrário do que me fizeste acreditar, o amor é de bradar aos céus. Evidente, absoluto e impossível de esconder. É o elefante escancarado no meio da sala. Um oceano de borboletas a dançar salsa na barriga.

Um dia vou trocar promessas tontas por beijos. Todos os beijos que houver para dar. Vou dançar contigo de mãos dadas, no meio da rua ou da sala, e fazer de conta que mais ninguém sabe o que é ser feliz. Tão feliz. Com sorte, vamos esquecer o tanto que caminhámos até voltar aqui, ao epicentro do caos e das certezas universais. Ao lugar agridoce que nos conhece de cor, onde nada falta,


meu Amor.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

#2

Daqui, sem que desconfies, mato saudades do teu olhar. Um olhar quase verde, quase meu, para sempre o mais bonito. Lembro-me da primeira vez em que te vi, tão menina e tão altiva, cheia de sabedoria e verdade. Como se soubesses onde está o tesouro que toda a gente procura. Não mudava nada. Nem a malícia azul-escura do teu sorriso, que esconde mais do que conta, que pede mais do que dá. E eu, por ti, dou tudo, como sabes. Daqui vejo-te a usar uma das tuas saias improváveis e tenho a absoluta certeza que todas as manhãs te vou amar mais do que gostaria. Mesmo naquelas em que não acordamos juntos. És a estrada queimada por onde passeio descalço, a seta que trespassa o peito a sangue frio, o oásis secreto no centro da cidade. Não há ninguém como tu. Ninguém. Ninguém que tão bem saiba o que é ser feliz sem falsos predicados ou condições absolutas. Ninguém que consiga, dessa forma quase infantil, tomar conta de tudo o que é meu. Ninguém que diga com igual descaramento “estou só a ver”, quando na verdade estás a usar e a abusar, até ficares farta. Às vezes és um bocadinho má. Daqui imagino-te a dançar em lugares onde nenhuma alma dançou. Ao som de músicas mais antigas do que as tuas malas vintage e sempre, mas sempre, em bicos de pés. Porque o chão firme é o destino e nunca o caminho. 

Toda a gente tem a sua história. E a minha é sobre ti. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

#1

Era capaz de atravessar a cidade a pé só para te ver,
e a culpa é tua.

Lembro-me que fomos jantar. Há vinte dias. Escolhemos o sítio em menos de duas mensagens. Telegráficas. Nunca fomos de complicar. Perdi a conta das vezes em que soube ler-te antes de haver qualquer palavra. O caminho para chegar a ti faz-se em linha reta. Sempre. 

És uma espécie de relógio suíço, versão ultra moderna. Não falhas, não vacilas, não mordes a corda. Nunca serás o primeiro a saltar borda fora. Nem saberás dizer se o copo está meio cheio ou meio vazio. É um copo com água e ponto. Discordamos mais vezes do que estamos de acordo. Dizemos asneiras, rimos a bom rir, falamos de coisas sérias sem corar. Não temos vergonha de olhar para trás, mas sabemos, sem saber é claro, que o melhor ainda está para vir.

Foste-me apresentado como uma 'top person'. Para olhares mais distraídos não temos absolutamente nada em comum. Acho que essa tua aura de capitão do navio coloca a fasquia muito elevada. Intimidaste-me, é claro. Mas deixei-me de tretas quando percebi que nos entendíamos nas pequenas grandes coisas. Sem filtros. Como dois miúdos a trocar cromos. Entendemo-nos no que importa. Nos gestos, nas ações, nas lutas silenciosas que travamos.

Nunca nos zangamos, mas estivemos muito tempo longe um do outro. Não foste ao meu casamento. Nunca precisei de saber o teu nome completo. Já nos vimos solteiros, de coração ao vento, comprometidos, casados, lixados e separados. Houve um momento lá atrás em que julguei estar a gostar muito de ti. Muito talvez seja exagero. Um exagero com direito a borboletas na barriga. Nunca to confessei. Nem foi preciso, porque apressadamente tomaste conta da situação e puseste os pontos nos is, dessa forma que só tu sabes fazer, sem qualquer sangue derramado. Um corte limpo.

Lembro-me que fomos jantar há vinte dias. Não me lembro como chegamos à parte do ‘sabes, acho que estou a apaixonar-me por ti’. Juro que não. Só me lembro de ter sentido o teu cheiro muito perto. Um aroma quente, quase abrasivo. E doce. Inebriante e doce. ‘Sim, estou a apaixonar-me por ti’. Repetes. Tenho a sensação que estás a sorrir, a saborear o momento, a puxar-me mais para ti. E eu não sei o que é estar tão perto de ti. Não desistes. Tocas-me no pescoço, onde te demoras um segundo ou uma hora. E depois vem o beijo. O primeiro e único beijo. Um comboio em alta velocidade. Um poema de Sophia. E uma branca. Demorada e íntima. Fiz a única coisa digna de ser feita: fugir de ti.

É como se o relógio suíço tivesse parado. E agora? Que é feito do tempo, da exatidão das coisas, do mergulho de olhos fechados? Não devolvi chamadas nem mensagens, não li emails. Porra, não faço a mínima ideia do que devo ou não fazer, nem sei o que comi ao almoço. Mudaste tudo. As regras são outras, o caminho deixou de ser em linha reta. E o pior é que tenho saudades tuas.

E hoje, só hoje, 
era capaz de atravessar a cidade a pé só para te ver.